"Ninguém aprende sozinho. Tampouco ninguém ensina ninguém. Os homens aprendem em comunhão, mediatizados pelo mundo". Paulo Freire
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domingo, 29 de julho de 2012
sábado, 9 de outubro de 2010
Mímesis e a reflexão contemporânea
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sexta-feira, 14 de maio de 2010
Vida de estudante durante o Romantismo
"A criação das faculdades de Direito, em São Paulo e em Pernambuco, e dos cursos médicos, no Rio de Janeiro e na Bahia, desencadeou um fenômeno inédito na vida do Império: o deslocamento de um grande número de jovens, de todas as partes dos país, para esses centros de estudos.
(...)
Alegres, espirituosos, irreverentes, os estudantes encontravam na convivência com colegas da mesma idade, e com idênticos ideais, o estímulo à literatura que dificilmente teriam se permanecessem em suas províncias. As salas das academias e as repúblicas tornaram-se centro intensos de vida literária, produzindo altos dividendos para a literatura. Desde a implantação das faculdades de direito, os estudantes constituíam o principal público consumidor de livros do país e um grande produtor de volumes e mais volumes de poesia, contos etc., ajudando a criar a indústria nacional de livros.
Tinham um apetite voraz por leituras, capazes de ingerir romances populares de gosto duvidoso, mas também saborear a literatura mais requintada da época, assimilá-la e abrasileirá-la. Leitores apaixonados, revelaram-se escritores excelentes, renovando a literatura brasileira, dando-lhe uma palpitação de vida desconhecida até então e tentando fazer dela um elemento indispensável à vida cotidiana, com um amor e uma intensidade que nunca mais se repetiria em nossa trajetória espiritual.
Esses novos habitantes começaram a alterar radicalmente o perfil da cidade. Tornaram-se os queridinho das iaiás. Baile ou reunião sem eles perdia toda a graça. Como as moças, também o comércio, dominado por portugueses e franceses, mestres na arte de caprichar no quilo de 800 gramas e no metro de 90 centímetros, passou a se interessar pelos estudantes. A atraí-los com mercadorias vindas da Corte ou da Europa, que antes não encontravam fregueses. Muito comum o anúncio de jornal dirigido aos ‘senhores estudantes’.
(...)
Toda a obra de Álvares de Azevedo e de Castro Alves foi escrita durante a vida acadêmica, interrompida pela morte prematura. A parte mais importante de Fagundes Varela surgiu em sua fase de estudante.
(...)
Estudiosos ou gazeteiros, os estudantes levavam uma vida bastante metódica. Acordavam, no mais tardar, às sete horas, com o repique do sino da Academia, almoçavam, jantavam, ceavam a horas regulares, tinham sua rotina diária de estudo. Cada república contava com seus serviçais domésticos, lavadeira, engomadeira e cozinheira – esta batizada pelo humor acadêmicos de Nhá Tudinha. Quase todos os rapazes faziam-se acompanhar de escravos, que lhes serviam de pajens. Ao se formarem, costumavam assinar a carta de alforria, retribuindo assim a dedicação recebida durante o curso. Às vezes, era diferente. Em cara à sua mãe, Álvares de Azevedo queixava-se de que o escravo Inácio ‘de pouco préstimo me tem servido’.
(...)
Em geral, era apenas nos quartos que se evidenciava que não se tratava de uma casa comum. Ali, nunca faltava a mesa de estudo, com a clássica lâmpada a óleo, e a cama, onde os rapazes descansavam e sonhavam de olhos abertos, liam e fumavam. Na mesinha de cabeceira, empilhavam-se os livros favoritos. A um canto, o espelho, no qual os estudantes verificavam se estavam na moda. Os modelos eram os grandes poetas franceses, cujas figuras vinham estampadas em revistas parisienses. Tinham especial vaidade com os cabelos, longos, ondulados, brilhosos de gordura, com as extremidades voltadas para fora ou para dentro, formando a curva sobre o colo, à maneira de Gauthier e Musset.
(...)
A literatura estava presente em cada minuto da vida dos rapazes, nas aulas, nos momentos de evasão, nos divertimentos. Boa parte dos divertimentos decorria em casa, em saraus informais, cujo espírito variava bastante, caso fossem realizados numa casa de família ou numa república.
(...)
O espírito mudava inteiramente quando as reuniões eram realizadas nas repúblicas, longe das moças e das famílias, em ambiente de plena descontração e liberdade. As conversas varavam a noite até o raiar do dia, contando anedotas picantes e aventuras da vida acadêmica, recitando poemas livres ou bestialógicos, entoando cantigas consagradas pelos estudantes, em meio à fumaça sufocante dos cigarros e charutos e da bebedeira de vinho e conhaque. Os mais ousados introduziam prostitutas. Eram as noites de ‘cinismo’, palavra que no vocabulário acadêmico era sinônimo de spleen. Havia até o verbo cinicar.”
(Machado, Ubiratan. Vida literária no Brasil durante o Romantismo, 2001, pp. 159-164)
Então, o que me dizem?
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quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
Autobiografia e Diário: algumas considerações
Por Luciana Messeder
Quando falamos em prosa memorialística, é muito comum que venham à nossa mente seus gêneros mais consagrados, tais como a autobiografia, a biografia, as memórias, as cartas, os diários, os testemunhos e as confissões.
Embora não tenha como objetivo abarcar todos os gêneros citados acima, este ensaio se propõe ao estudo de algumas características presentes na autobiografia e no diário. Para tanto, utilizarei como referencial teórico o excelente livro de Philippe Lejeune (O pacto autobiográfico. De Rousseau à Internet. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008), cuja leitura recomendo a todos que se interessem pelo tema.
***
Primeiras considerações
É sabido que a identidade de toda e qualquer pessoa se constitui em narrativas. Organizar a matéria caótica de uma vida, os emaranhados de tempos, pessoas, lugares, sentimentos e experiências é o desafio colocado ao sujeito que se propõe narrar sua existência.
O trabalho com a memória situa-se entre o tempo da escrita (presente) e o tempo narrado (passado), podendo, muitas vezes, tornar-se uma árdua batalha. O mergulho no passado está sempre sujeito a enganos, confusões, distorções, bem como esquecimentos (conscientes ou inconscientes).
Nesse sentido, em primeiro lugar, a prosa memorialística deve ser tomada como uma construção, na qual o autor seleciona fatos, organizando-os de modo a contar sua história. Em segundo lugar, o texto memorialístico, por sua própria natureza, deve esclarecer certas questões centrais à sua constituição: quem nos fala, de onde, por que, como e o que nos fala.
A autobiografia
Segundo Philippe Lejeune (2008), a autobiografia é uma narrativa retrospectiva em prosa que o narrador faz de fatos marcantes de sua vida. Nesse sentido, o narrador deve ser uma pessoa real, pois na autobiografia o leitor espera que o horizonte de verdade seja pertinente. Além disso, para que haja autobiografia é necessário que a fórmula autor = narrador = personagem seja respeitada.
Ainda de acordo com o autor, o “pacto autobiográfico” é uma espécie de contrato entre o leitor e o autor de uma autobiografia, que se manifesta já na capa do livro:
“É, portanto, em relação ao nome próprio que devem ser situados os problemas da autobiografia. (...) É nesse nome que se resume toda a existência do que chamamos de autor: única marca no texto de uma realidade extratextual indubitável, remetendo a uma pessoa real, que solicita, dessa forma, que lhe seja em última instância, atribuída a responsabilidade da enunciação de todo o texto escrito.” (Lejeune, P.: 2008, p. 23)
Dessa maneira, uma autobiografia sem uma capa que a identifique, não possui a marca que nos leve a concluir que estamos lendo uma história verídica.
O diário
O diário compartilha muitas semelhanças com a autobiografia definida anteriormente por Lejeune. Tal como a autobiografia, o diário possui a seguinte estrutura: identidade do narrador = identidade do personagem principal = identidade do autor.
Conforme já foi dito, a posição adotada pelo narrador da prosa memorialística é a perspectiva retrospectiva da narrativa. No entanto, nem todo texto que tenha tal perspectiva, é passível de verificação. Daí ressaltarmos mais uma característica própria da autobiografia que é comum ao diário:
“Em oposição a todas as formas de ficção, a biografia e a autobiografia são textos referenciais: exatamente como o discurso científico ou histórico, eles se propõem a fornecer informações a respeito de uma “realidade” externa ao texto a se submeter portanto a uma prova de verificação.” (Idem, p. 36)
“Vizinho” da autobiografia, o diário é um gênero constituído por certas particularidades, tais como: sua relação com o tempo, seu caráter fragmentado e sua utilidade.
Sobre sua peculiar relação com o tempo, podemos salientar que o diário, como o próprio nome nos diz, é uma forma de escrita cotidiana: sua matéria é o dia-a-dia e, por isso, ele reflete sucessivamente o presente. Tal relação com o tempo torna-o, para utilizarmos as expressões de Lejeune, uma “lista de dias” e uma “série de vestígios datados”: vestígios – porque referem-se ao seu caráter manuscrito e, por extensão, à caligrafia da pessoa que o escreveu e, até mesmo, a outros vestígios somados a este “vestígio original”, como flores secas, papéis etc. – com um suporte próprio, normalmente um caderno [1]. Além disso, a base de um diário é a data e, comumente, essa informação é a primeira a ser inserida na página. Ainda sobre a questão da data, é interessante observar uma importante distinção entre diário e autobiografia:
“(...) Um diário sem data, a rigor, não passa de uma simples caderneta. A datação pode ser mais ou menos precisa ou espaçada, mas é capital. Uma entrada no diário é o que foi escrito num certo momento, na mais absoluta ignorância quanto ao futuro, e cujo conteúdo não foi com certeza modificado. (...) Quando soa meia-noite não posso mais fazer modificações. Se o fizer, abandono o diário para cair na autobiografia.” (Ibdem, p. 260)
Seu caráter fragmentado fica visível não só pelas diferentes entradas, mas também pelos diversos temas que, por se espelharem no cotidiano, tornam-se eles próprios imprevisíveis. O diário é o espaço da escrita íntima (do “eu” para ele mesmo), cujo conteúdo, muitas vezes secreto, também é destinado, num primeiro momento, a quem o escreve.
Dentre as utilidades possíveis de um diário, Lejeune menciona as seguintes: a conservação da memória – o escritor pode querer no futuro reencontrar elementos do seu passado –; sobrevivência – o escritor pode também querer deixar seu legado para ser lembrado pelas gerações futuras –; desabafo; autoconhecimento; resistir às adversidades da vida – ou até mesmo a situações-limite, como a vivenciada por Anne Frank –; pensar – alguns escritores gostam de manter um diário para acompanharem seus processos de criação – ; e, por fim, escrever – alguém que goste simplesmente de escrever e tem prazer nisso.
***
Autobiografia e diário são gêneros diferentes, mas possuem em comum o fato de trabalharem com uma forma específica de narrativa (a prosa) e remeterem a uma temporalidade inscrita no campo da memória (o passado), tendo como eixo norteador o relato de vida de um “eu”. E são, justamente, essas características que os fazem compartilhar a denominação “prosa memorialística”.
Notas:
[1] Convém ressaltar que me refiro aqui a uma forma manuscrita de texto, mas que nada impede de incluir nesta categoria, apesar do suporte diferente, os blogs.
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
Movimento Tropicalista
Por Luciana Messeder
Antecedentes
No ano de 1964 foi instalado no Brasil o regime militar e, com ele, um clima de insegurança e indefinições se instaurou no meio cultural e artístico, uma vez que as demonstrações de poder do novo regime, desde o início, configuraram-se de modo violento e arbitrário.
Para entendermos a dimensão dessas primeiras intervenções políticas, precisamos ter em mente que os debates que mobilizavam a sociedade brasileira pouco antes do golpe de 64 giravam em torno de questões extremamente polêmicas como reforma agrária, alfabetização em massa (e a conseqüente legitimação eleitoral de quase metade da população brasileira), modernização do país e novos rumos de sua política externa.
Tais discussões fervilhavam nos jornais da época e causavam “arrepios” nas classes mais conservadoras da sociedade. O medo do advento do comunismo, da aprovação da lei do divórcio, da instauração da reforma agrária etc., fazia com que essa parcela da população se mostrasse bastante incomodada e preocupada com o futuro do país. Aproveitando tal circunstância, as forças direitistas se mobilizaram e, numa estratégia defensiva, conseguiram, apelando para os valores tradicionais arraigados na classe média, a organização de passeatas, como as “marchas da família com Deus pela Liberdade”, que clamavam pela manutenção da ordem, pela integridade do país, bem como pela preservação de suas instituições e de suas tradições cristãs.
Assim, uma das primeiras medidas do governo Castelo Branco foi a de atender o clamor da pequena burguesia e demonstrar que o perigo comunista e anticlerical seria combatido de maneira eficaz. Os militares alegaram que ideologia esquerdizante havia crescido muito e que era preciso agir estratégica e vigorosamente para silenciar essa massa popular que ousava se organizar. Dessa forma, iniciaram-se as perseguições aos sindicalistas, operários, camponeses e militares insurgentes: era necessário e urgente massacrar toda e qualquer ameaça à “ordem” e ao “progresso” do país.
Se a primeira ação do novo governo foi o corte entre os movimentos populares, espantosamente desenvolvidos nos anos que antecederam o golpe, e os movimentos de esquerda que mantinham contato direto com esses grupos, torna-se interessante observar que, mesmo com a adoção de medidas repressivas e violentas já nos seus primeiros anos, o regime militar, para a surpresa de todos, poupou boa parte da intelectualidade de esquerda de classe média, formada por profissionais liberais (professores universitários, críticos, jornalistas, artistas etc.), permitindo, com algumas restrições, a circulação de suas idéias e de suas produções artísticas (que durante o período compreendido entre 1964-1968, irão experimentar um crescimento excepcional).
Será, portanto, nesse contexto de relativa liberdade artística que surgirão, no ano de 1967, as primeiras manifestações daquilo que se tornará conhecido por movimento tropicalista.
Em outubro de 1967, no III Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, durante as apresentações de Caetano Veloso e Gilberto Gil, figuras ainda pouco conhecidas do público e do meio artístico nacional, nascia o movimento tropicalista.
As canções “Alegria, alegria” e “Domingo no parque”, apresentadas naquela ocasião, traziam consigo uma série de procedimentos nunca vistos antes na música popular brasileira, tornando-as, assim, matéria de estranhamento para o público e para a crítica especializada.
Público e crítica possuíam em comum um horizonte de expectativas bem delimitado, pois no cenário musical da época, vigoravam duas grandes correntes musicais que além de rivalizarem no plano musical propriamente dito, davam forma também à polarização ideológica manifesta na sociedade brasileira: Direita X Esquerda.
Tudo o que não estivesse comprometido com uma política participante, engajada, era considerado de “Direita”. Assim, a corrente musical que ficou conhecida como Ie-Ie-iê era considerada deveras lírica e alienada. Nela estavam englobados artistas como Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléia, que faziam parte da chamada Jovem Guarda. As composições da “turma do Ie-ie-iê” eram influenciadas pelo rock-and-roll norte-americano e inglês e possuíam letras leves, divertidas, que retratavam o universo juvenil de forma swingada, agradável e dançante. A segunda corrente, representante da “Esquerda”, era engajada politicamente e suas canções eram marcadas por letras de protesto e de denúncia das misérias da realidade brasileira. Muitos artistas da época, tais como Geraldo Vandré, Elis Regina, Jair Rodrigues, Chico Buarque, Edu Lobo, dentre outros, vincularam-se à sua proposta engajada.
Dessa maneira, quando as canções de Caetano e Gil apareceram no Festival, essas duas correntes (e seus respectivos públicos na platéia) não entenderam nada. Perguntavam-se: o que era aquilo? Que pessoas estranhas e que músicas eram aquelas?!
Quando Caetano Veloso surgiu no palco vestido com um terno xadrez marrom e uma camisa de gola rulê (os artistas naquela época tinham o costume de se apresentar de smoking), acompanhado por um grupo de jovens cabeludos, vestidos de cor-de-rosa, carregando guitarras elétricas, a platéia iniciou uma vaia furiosa.
(Dica: Que tal uma pesquisa no youtube para assistir aos vídeos das apresentações de "Alegria, alegria" e de "Domingo no parque"? Vale a pena!)
Caetano e os Beat Boys ignoraram a recepção e rapidamente iniciaram a execução da música, que tinha como introdução uma série de acordes de guitarra elétrica. O público, confuso, fez silêncio.
“Alegria, alegria” era uma música que falava de leveza: um jovem caminhando à toa, “sem lenço e sem documento”, “num sol de quase dezembro”, sem grandes preocupações e com alguns desejos. (De acordo com Caetano Veloso, a música foi pensada desde o início como uma “anti-Banda”, numa referência à música ganhadora do Festival de 1966, composta por Chico Buarque. O compositor baiano decidiu contrapor à cidadezinha do interior de contornos oitocentistas aludida pela música de Chico Buarque, um aspecto cosmopolita com marcas do século XX).

Álbum Caetano Veloso (1968), que contém a primeira gravação de "Alegria, alegria"
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O cenário é urbano, o jovem caminha pela cidade, passa por “bancas de revista” e a cena corriqueira é reforçada por palavras que enfatizam o sentido de atualidade dos fatos políticos e sociais (“crimes”, “espaçonaves”, “guerrilhas”, “caras de presidentes”, “bandeiras”, “bombas”) e da sociedade de consumo e entretenimento (“Cardinales”, “grandes beijos de amor”, “Brigitte Bardot”, “bancas de revista”, “coca-cola”, “canção”, “televisão”). Tais palavras, enumeradas quase que de forma caótica, apresentam um mundo fragmentado, no qual a política e o aspecto social não ganham mais relevância que os indicadores da sociedade de consumo. No final da canção, percebemos que esses dois pólos continuam em pé de igualdade, pois possuem a mesma força e, assim, se neutralizam.
O jovem segue sua caminhada indiferente à tensão política X entretenimento, resoluto (“eu vou”), desejando talvez “cantar na televisão” e “seguir vivendo”. A canção termina com a pergunta “Por que não?” repetida duas vezes, que para o crítico Augusto de Campos significa um desabafo-desafio: Por que não inovar, misturar estilos e experimentar na música popular brasileira?
Álbum Gilberto Gil (1968), que contém a primeira gravação de "Domingo no parque".
Álbum Tropicália ou Panis et circensis (1968), dos Mutantes: criação coletiva.
Se analisarmos algumas músicas seminais do movimento, tais como “Domingo no parque”, “Panis et circencis”, dentre outras, tendo em mente o contexto sócio-histórico-musical da época, perceberemos que o movimento tropicalista representou muito mais do que a criação de músicas e arranjos inovadores para o seu tempo.
Os tropicalistas extrapolaram o plano musical ao colocar em suas letras de música reflexões atualíssimas sobre Brasil, identidade nacional, valores tradicionais, juventude, dentre outros temas por eles abordados, tornando possível o diálogo entre os diferentes setores da sociedade. Suas músicas mostram o impasse entre as polarizações da época (direita X esquerda) e, por conseguinte, o empobrecimento da discussão que se efetuava no país na segunda metade da década de 1960.
Como uma brisa revigorante, o movimento tropicalista vai arejar o cenário intelectual brasileiro, superando tal impasse pelo viés da música comercial, da cultura pop, do humor e do experimentalismo.
As músicas tropicalistas, no fundo, tratam de um mesmo tema: a questão da liberdade. Uma liberdade plena que na proposta tropicalista deve ser conquistada em todos os níveis: estético, político, econômico, comportamental e sexual.
quarta-feira, 29 de julho de 2009
Uma Lição de Modesto Carone
Não sei se vocês sabem, mas um dos meus livros preferidos é O Castelo, de Franz Kafka. Meu exemplar possui a tradução de Modesto Carone, considerado não só o maior tradutor de Kafka no Brasil, como também um dos seus mais importantes comentadores. Ao ler a Folha de São Paulo no último dia 19, encontrei uma belíssima surpresa que dividirei a seguir com vocês: um trecho do novo livro desse admirável escritor/tradutor, Lição de Kafka, que será publicado no final desse mês pela Companhia das Letras. Anotações breves sobre um conto curto ENSAIO INÉDITO ANALISA FÁBULA EM QUE KAFKA CONSTRÓI O MONÓLOGO DE UM RATO DIANTE DE UMA ESCOLHA "RACIONAL"
Entre os contos de Kafka, consta pelo menos um que é pouco conhecido. Referimo-nos a "Pequena Fábula":
"Ah", disse o rato, "o mundo torna-se a cada dia mais estreito. A princípio era tão vasto que me dava medo, eu continuava correndo e me sentia feliz com o fato de que finalmente via à distância, à direita e à esquerda, as paredes, mas essas longas paredes convergem tão depressa uma para a outra que já estou no último quarto e lá no canto fica a ratoeira para a qual eu corro". -"Você só precisa mudar de direção", disse o gato, e devorou-o.
Trata-se de uma fábula porque nesse relato intervêm animais falantes. Mas não existe aqui -como é o caso da tradição das fábulas- uma moral explícita da história no final. A ausência dessa moral da história levou muitos intérpretes a não aceitarem que o caso é de fábula, embora o título seja esse, e sim de uma parábola, que apresenta a história como se ela estivesse ao lado de outra, com a qual estabelece relações de analogia.
Basicamente o texto é um monólogo do rato. O monólogo -sempre expressão do isolamento- começa com uma interjeição (Ah!). Essa interjeição no entanto é logo absorvida no relato de algo experimentado antes (o mundo era vasto, mais amplo que agora). A repetição da primeira pessoa (eu) e as expressões "medo" e "feliz", que exprimem afetos e se contradizem mutuamente, provocam o leitor a algum tipo de participação. As experiências do rato são apresentadas como sendo ativas só uma vez: "Eu via".
As demais são vividas passivamente: o mundo torna-se mais estreito, as paredes convergem uma para a outra, lá no canto fica a ratoeira. Tudo se passa como se o rato se visse num processo que corre com autonomia, naturalmente, sem intervenção do personagem narrador. O resto deve, assim, submeter-se à noção de que a sua situação é sem saída. O rato sempre foi movido -impulsionado- pelo medo; é isso que o faz correr para a frente, para o que é amplo e vasto, e perder-se no que é necessariamente estreito.
O fecho lacônico da peça tem uma precisão lógica que não é necessariamente cínica, e aparece sob a forma de um conselho desinteressado. O verbo "devorou" ("frass", do verbo "comer" destinado aos animais) assinala um acontecimento esperado num lugar inesperado e assume sua força no momento em que alcança uma nova dimensão que parecia faltar ao texto.
O que Kafka diz nessa micronarrativa? Diz, entre outras coisas, que a última saída da razão leva à ruína.
Ou seja: que todos os esforços para superar o medo e a derrocada significam apenas gradações da falta de liberdade objetiva do mundo. Para o rato não existe escolha, ou melhor: essa escolha só pode se dar entre as alternativas de submeter-se à violência da ratoeira ou à violência do gato. Nas "Conversações com Kafka", de Gustav Janouch, o poeta de Praga afirma, a certa altura, o seguinte: "Existe muita esperança, mas não para nós".
Era esse o teor, a base, da sua dialética negativa – e não há como discordar da coerência do humor negro contido nesta fábula.
(Texto extraído do jornal Folha de São Paulo, de 19 de julho de 2009.)
Então, o que me dizem?
quarta-feira, 15 de outubro de 2008
Pensamento do dia
"Tenho medo de estar fazendo o leitor perder seu tempo. É importante apontar para direção certa; na primeira página, no primeiro parágrafo, na primeira frase, até mesmo no título, se possível."
Joe Hill
terça-feira, 26 de agosto de 2008
Educação: a crítica da crítica
A revista Veja de 20 de agosto de 2008 elegeu o tema da Educação como matéria de capa. É possível ler parcialmente a matéria especial pela internet. A seguir coloco os endereços dos artigos disponíveis:
“Você sabe o que estão ensinando a ele?”
“Prontos para o século XIX”
Agora, coloco os links de dois ensaios que fazem uma reflexão sobre a matéria da revista.
“Especial sobre educação: neutralidade inventada”, por Bernardo Caprara (26/8/2008).
“O ensino vai mal e Veja conhece os culpados”, por Gabriel Perissé (19/8/2008)
Os dois são encontrados no site Observatório da imprensa:
Para quem não sabe, o Observatório é, na definição de seus colaboradores, uma “entidade civil, não-governamental, não-corporativa e não-partidária que pretende acompanhar, junto com outras organizações da sociedade civil, o desempenho da mídia brasileira”. Por ser uma importante fonte de informação, recomendo que vocês passem a conhecê-lo.
Então, o que me dizem?
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