sexta-feira, 14 de maio de 2010

Vida de estudante durante o Romantismo

"A criação das faculdades de Direito, em São Paulo e em Pernambuco, e dos cursos médicos, no Rio de Janeiro e na Bahia, desencadeou um fenômeno inédito na vida do Império: o deslocamento de um grande número de jovens, de todas as partes dos país, para esses centros de estudos.
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Alegres, espirituosos, irreverentes, os estudantes encontravam na convivência com colegas da mesma idade, e com idênticos ideais, o estímulo à literatura que dificilmente teriam se permanecessem em suas províncias. As salas das academias e as repúblicas tornaram-se centro intensos de vida literária, produzindo altos dividendos para a literatura. Desde a implantação das faculdades de direito, os estudantes constituíam o principal público consumidor de livros do país e um grande produtor de volumes e mais volumes de poesia, contos etc., ajudando a criar a indústria nacional de livros.
Tinham um apetite voraz por leituras, capazes de ingerir romances populares de gosto duvidoso, mas também saborear a literatura mais requintada da época, assimilá-la e abrasileirá-la. Leitores apaixonados, revelaram-se escritores excelentes, renovando a literatura brasileira, dando-lhe uma palpitação de vida desconhecida até então e tentando fazer dela um elemento indispensável à vida cotidiana, com um amor e uma intensidade que nunca mais se repetiria em nossa trajetória espiritual.
Esses novos habitantes começaram a alterar radicalmente o perfil da cidade. Tornaram-se os queridinho das iaiás. Baile ou reunião sem eles perdia toda a graça. Como as moças, também o comércio, dominado por portugueses e franceses, mestres na arte de caprichar no quilo de 800 gramas e no metro de 90 centímetros, passou a se interessar pelos estudantes. A atraí-los com mercadorias vindas da Corte ou da Europa, que antes não encontravam fregueses. Muito comum o anúncio de jornal dirigido aos ‘senhores estudantes’.
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Toda a obra de Álvares de Azevedo e de Castro Alves foi escrita durante a vida acadêmica, interrompida pela morte prematura. A parte mais importante de Fagundes Varela surgiu em sua fase de estudante.
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Estudiosos ou gazeteiros, os estudantes levavam uma vida bastante metódica. Acordavam, no mais tardar, às sete horas, com o repique do sino da Academia, almoçavam, jantavam, ceavam a horas regulares, tinham sua rotina diária de estudo. Cada república contava com seus serviçais domésticos, lavadeira, engomadeira e cozinheira – esta batizada pelo humor acadêmicos de Nhá Tudinha. Quase todos os rapazes faziam-se acompanhar de escravos, que lhes serviam de pajens. Ao se formarem, costumavam assinar a carta de alforria, retribuindo assim a dedicação recebida durante o curso. Às vezes, era diferente. Em cara à sua mãe, Álvares de Azevedo queixava-se de que o escravo Inácio ‘de pouco préstimo me tem servido’.
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Em geral, era apenas nos quartos que se evidenciava que não se tratava de uma casa comum. Ali, nunca faltava a mesa de estudo, com a clássica lâmpada a óleo, e a cama, onde os rapazes descansavam e sonhavam de olhos abertos, liam e fumavam. Na mesinha de cabeceira, empilhavam-se os livros favoritos. A um canto, o espelho, no qual os estudantes verificavam se estavam na moda. Os modelos eram os grandes poetas franceses, cujas figuras vinham estampadas em revistas parisienses. Tinham especial vaidade com os cabelos, longos, ondulados, brilhosos de gordura, com as extremidades voltadas para fora ou para dentro, formando a curva sobre o colo, à maneira de Gauthier e Musset.
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A literatura estava presente em cada minuto da vida dos rapazes, nas aulas, nos momentos de evasão, nos divertimentos. Boa parte dos divertimentos decorria em casa, em saraus informais, cujo espírito variava bastante, caso fossem realizados numa casa de família ou numa república.
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O espírito mudava inteiramente quando as reuniões eram realizadas nas repúblicas, longe das moças e das famílias, em ambiente de plena descontração e liberdade. As conversas varavam a noite até o raiar do dia, contando anedotas picantes e aventuras da vida acadêmica, recitando poemas livres ou bestialógicos, entoando cantigas consagradas pelos estudantes, em meio à fumaça sufocante dos cigarros e charutos e da bebedeira de vinho e conhaque. Os mais ousados introduziam prostitutas. Eram as noites de ‘cinismo’, palavra que no vocabulário acadêmico era sinônimo de spleen. Havia até o verbo cinicar.”
(Machado, Ubiratan. Vida literária no Brasil durante o Romantismo, 2001, pp. 159-164)
Então, o que me dizem?

3 comentários:

Criados e Predestinados à Santidade disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Amanda disse...

Ahhh! Muito bom este post, Luciana! Amei! Só uma diquinha: muda o fundo preto, ficou um pouco difícil de ler, mas valeu muito a pena! Ameeei!

Beeeeijos!

Amanda F.

Luciana disse...

Amanda, querida,
obrigada pela visita e pelo comentário!
Beijos,
Luciana