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quinta-feira, 26 de março de 2015

Cada vez mais fã!

Queridos,

vejam Lenine explicando a musicalidade da Língua Portuguesa!

Então, o que me dizem?

quarta-feira, 26 de março de 2014

As cantigas trovadorescas

Pessoal,

aqui vocês encontrarão alguns trechos do livro de Maria Luiza Abaurre associados às letras de algumas cantigas em galego-português representativas do Trovadorismo.  

Vale a pena conferir os links de cada cantiga: além de um vídeo repleto de imagens bacanas, vocês poderão escutá-las! Aproveitem!!!

Que tal relembrarmos como são divididas as cantigas líricas? São divididas em:

1. Cantigas de amor

"Exprimem uma paixão infeliz, o amor não correspondido que um trovador dedica a sua senhora. A estrutura da cantiga de amor apresenta alguns elementos característicos. O eu lírico é sempre masculino e representa um trovador que dirige os elogios a uma dama. O trovador, que sofre com frequência, se autodenomina coitado, cativo, aflito, enlouquecido, sofredor. A dama é identificada por termos que destacam suas qualidades físicas (fremosa, delgada, de bem parecer), morais (bondade, lealdade, comprida de bem), sociais (bom ser, falar mui ben). Ao comparar sua dama às outras da mesma corte, o eu lírico a apresenta como superior. As comparações também são utilizadas para acentuar as características do trovador: sua dor é a maior do que a de todos os outros e seus talentos superam os de seus rivais. 

As cantigas de amor trazem poucas referências ao cenário, mas, quando elas ocorrem, costumam falar do ambiente da corte ou de uma natureza idealizada. Outra característica de sua estrutura é a presença de um número reduzido de personagens, além do trovador e da sua senhora: geralmente são feitas referências a algum rival ou a Deus." (Fonte: ABAURRE, Maria Luiza e PONTARA, Marcela. Literatura Brasileira.Tempos, Leitores e Leituras. Ensino Médio. São Paulo: Editora Moderna, 2005, p. 90-1)

Observe algumas dessas características na cantiga de Dom Dinis:

Os diré, con tristeza, lo que nunca pensé

que os diría, señora,

porque veo que por vos muero,

porque sabéis que nunca os hablé

de cómo me mataba vuestro amor:

porque sabéis bien que de otra señora
yo no sentía ni siento temor.



Todo esto me hizo sentir

el temor que de vos tengo,

y desde ahí por vos dar a entender

que por otra moriría, de ella tengo,

sabéis bien, algo de temor;

y desde hoy, hermosa señora mía,

si me matáis, bien me lo habré buscado.



Y creed que tendré gusto

de que me matéis, pues yo sé con certeza

que en el poco tiempo que he de vivir,

ningún placer obtendré;
y porque estoy seguro de esto,

si me quisierais dar muerte, señora,

por gran misericordia os lo tendré.




2. Cantigas de amigo

"De modo geral, as cantigas de amigo falam de uma relação amorosa concreta que acontece entre pessoas simples, que vivem no campo. O tema central dessas cantigas é a saudade. As personagens, o ambiente e a linguagem presentes nas cantigas líricas fazem com que elas representem diferentes universos da sociedade medieval.

Se, nas cantigas de amor, todas as referências dizem respeito aos membros da corte, à vida nos palácios, às damas sofisticadas e ricas, nas cantigas de amigo, elas dizem respeito aos sentimentos e à vida campesina, às moças simples que vivem nas aldeias e nos campos.

O eu lírico das cantigas de amigo é sempre feminino e representa a voz de uma mulher (amiga) que manifesta a saudade pela ausência do amigo (namorado ou amante). Como o trovador que compõe essas cantigas é um homem, a adoção de um eu lírico feminino acaba por apresentar, para os membros da corte, aquilo que os compositores consideravam a visão feminina da saudade e do amor.

O cenário é sempre caracterizado em um ambiente campesino. Várias personagens participam do 'universo amoroso' criado na cantiga de amigo, além da donzela e de seu amante: mãe, amigas, damas de companhia. Essas personagens são testemunhas do amor que a amiga dedica ao seu namorado.

Alguns termos são utilizados para caracterizar a mulher que fala nessas cantigas. Ela se identifica como louçã (clara, branca), velida (bonita), fremosa, delgada, de bem parecer. O tom das cantigas de amigo é mais positivo e otimista que o das cantigas de amor, porque, embora falem da saudade, tratam de um amor que é real e que ocorre entre pessoas de condição social semelhante. Por esse motivo, a amiga se define frequentemente como alegre (leda)." (ABAURRE, op. cit. p. 92)


Bailemos ya nosotras tres, ay amigas,

bajo estos avellanos floridos.

Y quien fuera garrida como nosotras somos garridas,

Si sabe amar,

bajo estos avellanos floridos

vendrá a bailar.



Bailemos ya nosotras tres juntas, ay hermanas,

bajo estas ramas avellanos

Y quien fuera galana como nosotras somos galanas,

si sabe amar,
bajo estas ramas de estos avellanos

vendrá a bailar.



Por Dios, amigas, mentiras no decimos

bajo estas ramas floridas bailamos,

y quien buen humor tenga como nosotras tenemos,

si sabe amar,

bajo estas ramas,
donde nosotras bailamos,

vendrá a bailar.


Cantigas líricas


"Já as cantigas de caráter satírico apresentavam críticas ao comportamento social de seus pares, difamavam alguns nobres ou denunciavam as damas que deixavam de cumprir seu papel no jogo do amor cortês. Elas podem ser de escárnio ou de maldizer.

1. Cantigas de escárnio

Nas cantigas de escárnio, o trovador critica alguém por meio de palavras de duplo sentido, para que não sejam facilmente compreendidas. O efeito satírico que caracteriza essas cantigas é obtido por meio de ironias, trocadilhos e jogos semânticos. De modo geral, ridicularizam o comportamento de nobres ou denunciam as mulheres que não seguem o código de amor cortês.


El que de la guerra se llevó caballeros

y se fue a su tierra a guardar los dineros,

no viene al mayo.

El que de la guerra se fue con maldad

y se fue a su tierra a comprar fincas...



El que de la guerra se fue con hostilidad,

pero no vino cuando debía hacerlo por pleitesía...

El que de la guerra se fue espantado

y se fue a su tierra a ponerse el manton...



El que de la guerra se fue 

con gran miedo a su tierra, sembrando vallas...

El que por la guerra fue muy criticado, 

aunque hizo pintar un escudo en Burgos...



El que traía el paño de lino, 

pero no vino para San Martín...

El que traía el pendón enarbolado

y no ha heredado el humor de su padre...



El que traía pendón sin tener ni ocho caballeros

y a su gente no le daba pan cocido...

El que sin tener ni siete caballeros traía pendón

y cinta ancha y gran escudo...



El que traía pendón pero no tienda, 

por lo que ahora sé de su hazienda...

El que traía pendón de seda gruesa,

aunque no vino en el mes de marzo...



El que se ausentó de la cita del día de San Martín

y se fue a su tierra a beber los vinos...

El que huyó de la frontera con miedo,

aunque traía pendón pero no caldera...



El que robó a los moros malditos

y se fue a su tierra a robar cabritos,

no viene al mayo.



2. Cantigas de maldizer

Nas cantigas de maldizer, o trovador faz suas críticas de modo direto, explícito, identificando a pessoa satirizada. Essas cantigas costumam apresentar linguagem ofensiva e de baixo calão. Muitas vezes, tratam das indiscrições amorosas de nobres e membros do clero." (ABAURRE, op. cit. p. 94)



Cantigas satíricas



quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Carmina Burana

Olá, queridos!

Na aula de amanhã falaremos de Idade Média e do nascimento da Literatura Portuguesa.

Para entrar no clima, que tal escutarmos a composição "O Fortuna" de Carmina Burana?


Carmina Burana; latim para ‘Canções de Beuern’ (abreviação de Benediktbeuern) é o nome dado a poemas e textos dramáticos manuscritos de 254. As peças são em sua maioria picantes, irreverentes e satíricas e foram escritas principlamente em latim medieval (...). Vinte e quatro poemas de Carmina Burana foram musicalizados por Carl Orff em 1936.”
                                                                              (Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Carmina_Burana)




Capa do CD Carmina Burana

“O Fortuna”
(Carl Off)

O fortuna
Velut luna
Statu variabilis,
Semper crescis
Aut decrescis;
Vita detestabilis
Nunc obdurate
Et tunc curat
Ludo mentis aciem,
Egestatem,

Potestatem
Dissolvit ut glaciem.

Sors immanis
Et inanis,

Rota tu volubilis,
Status malus,
Vana salus
Semper dissolubilis,
Obumbrata
Et velata
Michi quoque niteris;
Nunc per ludum

Dorsum nudum
Fero tui sceleris.

Sors salutis
Et virtutis
Michi nunc contraria,
Est affectus
Et defectus
Semper in angaria.
Hac in hora
Sine mora
Corde pulsum tangite;
Quod per sortem

Sternit fortem,
Mecum omnes plangite!
Roda da fortuna representada no códice de Carmina Burana

Códice (ou codex, palavra em latim que significa "livro", "bloco de madeira") era um manuscrito gravado, em geral, em madeira. 

(Tradução)

Ó fortuna
És como a Lua
Mutável,
Sempre aumentas
Ou diminuis;
A detestável vida
Ora oprime
E ora cura
Para brincar com a mente;
Miséria,
Poder,
Ela os funde como gelo.

Sorte imensa
E vazia,
Tu, roda volúvel
És má,
Vã é a felicidade
Sempre dissolúvel,
Nebulosa
E velada
Também a mim contagias;
Agora por brincadeira
O dorso nu
Entrego à tua perversidade.

A sorte na saúde
E virtude
Agora me é contrária.
E tira
Mantendo sempre escravizado
Nesta hora
Sem demora
Tange a corda vibrante;
Porque a sorte
Abate o forte,
Chorai todos comigo!

(Fonte: http://letras.mus.br/orff-carl/74710/traducao.html)

Então, o que me dizem?




sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

"Canto de Ossanha"


Canto de Ossanha
(Vinicius de Moraes e Baden Powell)

O homem que diz "dou"
 não dá
Porque quem dá mesmo 
não diz
O homem que diz "vou" 
não vai
Porque quando foi 
já não quis
O homem que diz "sou"
 não é
Porque quem é mesmo é “não sou”

O homem que diz "estou" 
não está

Porque ninguém está
 quando quer
Coitado do homem que cai

No canto de Ossanha, 
traidor
Coitado do homem que vai

Atrás de mandinga de amor


Vai, Vai, Vai, Vai, 
não vou
Vai, Vai, Vai, Vai,
 não vou
Vai, Vai, Vai, Vai,
 não vou
Vai, Vai, Vai, Vai, não vou
Que eu não sou ninguém de ir

Em conversa de esquecer

A tristeza de um amor
 que passou
Não, eu só vou se for pra ver

Uma estrela aparecer

Na manhã de um novo amor


Amigo sinhô

Saravá

Xangô me mandou lhe dizer

Se é canto de Ossanha, não vá
Que muito vai se arrepender

Pergunte pro seu Orixá

Amor só é bom se doer


Vai, Vai, Vai, Vai,
 amar
Vai, Vai, Vai, Vai,
 sofrer
Vai, Vai, Vai, Vai,
 chorar
Vai, Vai, Vai, Vai, dizer
Em conversa de esquecer

A tristeza de um amor
 que passou
Não, eu só vou se for pra ver

Uma estrela aparecer

Na manhã de um novo amor


Escute aqui a versão original.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Saudades do Tim Maia!

Uma de minhas músicas preferidas.


quinta-feira, 14 de junho de 2012

Parabéns!!!

Hoje minha pequena Ana Luiza completa seu primeiro ano!

Que felicidade!!!



segunda-feira, 23 de abril de 2012

Salve Jorge!





"Jorge da Capadócia"
Jorge Ben Jor

Jorge sentou praça
Na cavalaria
E eu estou feliz porque eu também
Sou da sua companhia
Eu estou vestida com as roupas
E as armas de Jorge
Para que meus inimigos tenham pés
E não me alcancem
Para que meus inimigos tenham mãos
E não me toquem
Para que meus inimigos tenham olhos
E não me vejam
E nem mesmo um pensamento
Eles possam ter para me fazerem mal
Porque eu estou vestida com as roupas

E as armas de Jorge
Salve Jorge
Salve Jorge
Salve Jorge
Armas de fogo
O meu corpo não alcançarão
Facas e espadas se quebrem
Sem o meu corpo tocar
Cordas e correntes arrebentem
Sem o meu corpo amarrar
Porque eu estou vestida com as roupas
E as armas de Jorge

quinta-feira, 8 de março de 2012

Dia Internacional da Mulher

Queridas,
nesse dia tão especial, dedico essa música fantástica a todas vocês.


"Eu apenas queria que você soubesse"


Eu apenas queria
que você soubesse
Que aquela alegria
ainda está comigo
E que a minha ternura
não ficou na estrada
não ficou no tempo
presa na poeira

Eu apenas queria
que você soubesse
Que esta menina
hoje é uma mulher
E que esta mulher
é uma menina
que colheu seu fruto
flor do seu carinho

Eu apenas queria dizer
a todo mundo que me gosta
que hoje eu me gosto muito mais
porque me entendo
muito mais também
E que a atitude
de recomeçar
É todo dia, toda hora
É se respeitar
na sua força e fé
Se olhar bem fundo
até o dedão do pé

Eu apenas queria
que você soubesse
Que essa criança
brinca nessa roda
E não teme os cortes
das novas feridas
pois tem a saúde
que aprendeu com a vida                               

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Salve!

Queridos,

hoje é um dia especial!

O blog Algumas Palavras inicia o ano de cara nova! E hoje é dia de Yemanjá!

Para celebrar os novos tempos, nada melhor que Bethânia saudando
a rainha do mar:

http://www.youtube.com/watch?v=_cKsvrOGSMI&feature=related

Então, o que me dizem?

terça-feira, 24 de agosto de 2010

"Amor I love you" e O primo Basílio

Queridos,


não deixem de escutar a música “Amor I love you”, de Marisa Monte e Arnaldo Antunes (caracterizados como Luísa e Basílio!):


http://www.youtube.com/watch?v=5TdTacizYdA&feature=search


Detalhe: notem que luxo Arnaldo recitando uma famosa passagem de O primo Basílio, de Eça de Queirós:

“E Luísa tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente! Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades, e o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saía delas, como um corpo ressequido que se estira num banho tépido; sentia um acréscimo de estima por si mesma, e parecia-lhe que entrava enfim numa existência superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu encanto diferente, cada passo conduzia a um êxtase, e a alma se cobria de um luxo radioso de sensações!"
(Queirós, Eça de. O primo Basílio. 15ª edição, São Paulo: Ática, 1994, p. 134)

Então, o que me dizem?

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

"A história de Lily Braun"

“A história de Lily Braun”


Versão Maria Gadu:

http://www.youtube.com/watch?v=UBxVmCF-oEw&NR=1&feature=fvwp


Versão Chico e Edu:

http://www.youtube.com/watch?v=a4SUDEGAhXs&feature=related




Para quem quiser conhecer o poema de Jorge de Lima e sua releitura no espetáculo criado por Chico Buarque e Edu Lobo:



http://parameusalunos.blogspot.com/2008/08/o-grande-circo-mstico.html





P. S.: João e Alinne, este post é para vocês :) Beijos, Luciana

P.S. 2:  Como bem lembrou minha querida Laura, temos ainda a versão de Gal Costa da "História de Lily Braun"(LP O grande circo místico):




http://www.youtube.com/watch?v=lcKzH7VTgTw&feature=search



Aproveito, então, para indicar duas outras músicas desse LP fantástico:

Tim Maia interpretando “A bela e a fera”:

http://www.youtube.com/watch?v=wd8y6m0y52U&feature=related


Milton Nascimento interpretando “Beatriz”:

http://www.youtube.com/watch?v=rypL0El5k1I&feature=search

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Fotos do "Karaosesc"

Olá queridos,
nem preciso dizer que me diverti muito no plantão de ontem, né?
Agradeço a todos pela participação e animação!
A seguir coloco algumas fotos do nosso "Karaosesc", rs.
Beijos e até a próxima,
Luciana
Início do "Karaosesc", que contou com...

grandes performances...

com uma equipe de jurados atenta aos mínimos detalhes...
com a participação de assistentes de produção/cantoras fantásticas e
com muita animação!
Amo muito tudo isso! Eu, entre Joana e Gabi.
Presenças ilustres: João e Willian apareceram desta vez!
O show de Bruna e Matheus!
Por fim, a equipe técnica com duas das três grandes vencedoras da tarde (faltou uma!)
Então, o que me dizem?

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Movimento Tropicalista

Por Luciana Messeder


Antecedentes

No ano de 1964 foi instalado no Brasil o regime militar e, com ele, um clima de insegurança e indefinições se instaurou no meio cultural e artístico, uma vez que as demonstrações de poder do novo regime, desde o início, configuraram-se de modo violento e arbitrário.
Para entendermos a dimensão dessas primeiras intervenções políticas, precisamos ter em mente que os debates que mobilizavam a sociedade brasileira pouco antes do golpe de 64 giravam em torno de questões extremamente polêmicas como reforma agrária, alfabetização em massa (e a conseqüente legitimação eleitoral de quase metade da população brasileira), modernização do país e novos rumos de sua política externa.
Tais discussões fervilhavam nos jornais da época e causavam “arrepios” nas classes mais conservadoras da sociedade. O medo do advento do comunismo, da aprovação da lei do divórcio, da instauração da reforma agrária etc., fazia com que essa parcela da população se mostrasse bastante incomodada e preocupada com o futuro do país. Aproveitando tal circunstância, as forças direitistas se mobilizaram e, numa estratégia defensiva, conseguiram, apelando para os valores tradicionais arraigados na classe média, a organização de passeatas, como as “marchas da família com Deus pela Liberdade”, que clamavam pela manutenção da ordem, pela integridade do país, bem como pela preservação de suas instituições e de suas tradições cristãs.
Assim, uma das primeiras medidas do governo Castelo Branco foi a de atender o clamor da pequena burguesia e demonstrar que o perigo comunista e anticlerical seria combatido de maneira eficaz. Os militares alegaram que ideologia esquerdizante havia crescido muito e que era preciso agir estratégica e vigorosamente para silenciar essa massa popular que ousava se organizar. Dessa forma, iniciaram-se as perseguições aos sindicalistas, operários, camponeses e militares insurgentes: era necessário e urgente massacrar toda e qualquer ameaça à “ordem” e ao “progresso” do país.
Se a primeira ação do novo governo foi o corte entre os movimentos populares, espantosamente desenvolvidos nos anos que antecederam o golpe, e os movimentos de esquerda que mantinham contato direto com esses grupos, torna-se interessante observar que, mesmo com a adoção de medidas repressivas e violentas já nos seus primeiros anos, o regime militar, para a surpresa de todos, poupou boa parte da intelectualidade de esquerda de classe média, formada por profissionais liberais (professores universitários, críticos, jornalistas, artistas etc.), permitindo, com algumas restrições, a circulação de suas idéias e de suas produções artísticas (que durante o período compreendido entre 1964-1968, irão experimentar um crescimento excepcional).
Será, portanto, nesse contexto de relativa liberdade artística que surgirão, no ano de 1967, as primeiras manifestações daquilo que se tornará conhecido por movimento tropicalista.

Movimento tropicalista: “Por que não?”

Em outubro de 1967, no III Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, durante as apresentações de Caetano Veloso e Gilberto Gil, figuras ainda pouco conhecidas do público e do meio artístico nacional, nascia o movimento tropicalista.
As canções “Alegria, alegria” e “Domingo no parque”, apresentadas naquela ocasião, traziam consigo uma série de procedimentos nunca vistos antes na música popular brasileira, tornando-as, assim, matéria de estranhamento para o público e para a crítica especializada.
Público e crítica possuíam em comum um horizonte de expectativas bem delimitado, pois no cenário musical da época, vigoravam duas grandes correntes musicais que além de rivalizarem no plano musical propriamente dito, davam forma também à polarização ideológica manifesta na sociedade brasileira: Direita X Esquerda.
Tudo o que não estivesse comprometido com uma política participante, engajada, era considerado de “Direita”. Assim, a corrente musical que ficou conhecida como Ie-Ie-iê era considerada deveras lírica e alienada. Nela estavam englobados artistas como Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléia, que faziam parte da chamada Jovem Guarda. As composições da “turma do Ie-ie-iê” eram influenciadas pelo rock-and-roll norte-americano e inglês e possuíam letras leves, divertidas, que retratavam o universo juvenil de forma swingada, agradável e dançante. A segunda corrente, representante da “Esquerda”, era engajada politicamente e suas canções eram marcadas por letras de protesto e de denúncia das misérias da realidade brasileira. Muitos artistas da época, tais como Geraldo Vandré, Elis Regina, Jair Rodrigues, Chico Buarque, Edu Lobo, dentre outros, vincularam-se à sua proposta engajada.
Dessa maneira, quando as canções de Caetano e Gil apareceram no Festival, essas duas correntes (e seus respectivos públicos na platéia) não entenderam nada. Perguntavam-se: o que era aquilo? Que pessoas estranhas e que músicas eram aquelas?!

“Alegria, alegria”

Quando Caetano Veloso surgiu no palco vestido com um terno xadrez marrom e uma camisa de gola rulê (os artistas naquela época tinham o costume de se apresentar de smoking), acompanhado por um grupo de jovens cabeludos, vestidos de cor-de-rosa, carregando guitarras elétricas, a platéia iniciou uma vaia furiosa.
(Dica: Que tal uma pesquisa no youtube para assistir aos vídeos das apresentações de "Alegria, alegria" e de "Domingo no parque"? Vale a pena!)
Caetano e os Beat Boys ignoraram a recepção e rapidamente iniciaram a execução da música, que tinha como introdução uma série de acordes de guitarra elétrica. O público, confuso, fez silêncio.
“Alegria, alegria” era uma música que falava de leveza: um jovem caminhando à toa, “sem lenço e sem documento”, “num sol de quase dezembro”, sem grandes preocupações e com alguns desejos. (De acordo com Caetano Veloso, a música foi pensada desde o início como uma “anti-Banda”, numa referência à música ganhadora do Festival de 1966, composta por Chico Buarque. O compositor baiano decidiu contrapor à cidadezinha do interior de contornos oitocentistas aludida pela música de Chico Buarque, um aspecto cosmopolita com marcas do século XX).

Álbum Caetano Veloso (1968), que contém a primeira gravação de "Alegria, alegria"
.
O cenário é urbano, o jovem caminha pela cidade, passa por “bancas de revista” e a cena corriqueira é reforçada por palavras que enfatizam o sentido de atualidade dos fatos políticos e sociais (“crimes”, “espaçonaves”, “guerrilhas”, “caras de presidentes”, “bandeiras”, “bombas”) e da sociedade de consumo e entretenimento (“Cardinales”, “grandes beijos de amor”, “Brigitte Bardot”, “bancas de revista”, “coca-cola”, “canção”, “televisão”). Tais palavras, enumeradas quase que de forma caótica, apresentam um mundo fragmentado, no qual a política e o aspecto social não ganham mais relevância que os indicadores da sociedade de consumo. No final da canção, percebemos que esses dois pólos continuam em pé de igualdade, pois possuem a mesma força e, assim, se neutralizam.
O jovem segue sua caminhada indiferente à tensão política X entretenimento, resoluto (“eu vou”), desejando talvez “cantar na televisão” e “seguir vivendo”. A canção termina com a pergunta “Por que não?” repetida duas vezes, que para o crítico Augusto de Campos significa um desabafo-desafio: Por que não inovar, misturar estilos e experimentar na música popular brasileira?

Álbum Gilberto Gil (1968), que contém a primeira gravação de "Domingo no parque".


Álbum Tropicália ou Panis et circensis (1968), dos Mutantes: criação coletiva.

Se analisarmos algumas músicas seminais do movimento, tais como “Domingo no parque”, “Panis et circencis”, dentre outras, tendo em mente o contexto sócio-histórico-musical da época, perceberemos que o movimento tropicalista representou muito mais do que a criação de músicas e arranjos inovadores para o seu tempo.
Os tropicalistas extrapolaram o plano musical ao colocar em suas letras de música reflexões atualíssimas sobre Brasil, identidade nacional, valores tradicionais, juventude, dentre outros temas por eles abordados, tornando possível o diálogo entre os diferentes setores da sociedade. Suas músicas mostram o impasse entre as polarizações da época (direita X esquerda) e, por conseguinte, o empobrecimento da discussão que se efetuava no país na segunda metade da década de 1960.
Como uma brisa revigorante, o movimento tropicalista vai arejar o cenário intelectual brasileiro, superando tal impasse pelo viés da música comercial, da cultura pop, do humor e do experimentalismo.
As músicas tropicalistas, no fundo, tratam de um mesmo tema: a questão da liberdade. Uma liberdade plena que na proposta tropicalista deve ser conquistada em todos os níveis: estético, político, econômico, comportamental e sexual.