quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

"Estudos para uma bailadora andaluza", João Cabral de Melo Neto

Olá pessoal,
durante a aula passada, usei como exemplo para análise estilística esse poema de João Cabral de Melo Neto, não é mesmo? Que tal uma leitura das primeiras 3 partes (estudos) do poema, percebendo os procedimentos estilísticos utilizados pelo autor para inserir nele o ritmo da dança flamenca e para construir as belíssimas metáforas para a bailadora e sua dança?
Para quem não conhece (ou quer conhecer mais) a dança flamenca, coloco a seguir o link de um vídeo do you tube http://www.youtube.com/watch?v=UXTHZN-8C5M (PROGRAMA ESPECIAL DANÇA FLAMENCA, ROTEIRO E DIREÇÃO: CYRO RIDAL).
Estudos para uma bailadora andaluza
I
Dir-se-ia, quando aparece
dançando por siguiriyas,
que com a imagem do fogo
inteira se identifica.
Todos os gestos do fogo
que então possui dir-se-ia:
gestos das folhas do fogo,
de seu cabelo, sua língua;
gestos do corpo do fogo,
de sua carne em agonia,
carne de fogo, só nervos,
carne toda em carne viva.
Então, o caráter do fogo
nela também se adivinha:
mesmo gosto dos extremos,
de natureza faminta,
gosto de chegar ao fim
do que dele se aproxima,
gosto de chegar-se ao fim,
de atingir a própria cinza.
Porém a imagem do fogo
é num ponto desmentida:
que o fogo não é capaz
como ela é, nas siguiriyas,
de arrancar-se de si mesmo
numa primeira faísca,
nessa que, quando ela quer,
vem e acende-a fibra a fibra,
que somente ela é capaz
de acender-se estando fria,
de incendiar-se com nada,
de incendiar-se sozinha.
II
Subida ao dorso da dança
(vai carregada ou a carrega?)
é impossível se dizer
se é a cavaleira ou a égua.
Ela tem na sua dança
toda a energia retesa
e todo o nervo de quando
algum cavalo se encrespa.
Isto é: tanto a tensão
de quem vai montado em sela,
de quem monta um animal
e só a custo o debela,
como a tensão do animal
dominado sob a rédea,
que ressente ser mandado
e obedecendo protesta.
Então, como declarar
se ela é égua ou cavaleira:
há uma tal conformidade
entre o que é animal e é ela,
entre a parte que domina
e a parte que se rebela,
entre o que nela cavalga
e o que é cavalgado nela,
que o melhor será dizer
de ambas, cavaleira e égua,
que são de uma mesma coisa
e que um só nervo as inerva,
e que é impossível traçar
nenhuma linha fronteira
entre ela e a montaria:
ela é a égua e a cavaleira.
III
Quando está taconeando
a cabeça, atenta, inclina,
como se buscasse ouvir
alguma voz indistinta.
Há nessa atenção curvada
muito de telegrafista,
atento para não perder
a mensagem transmitida.
Mas o que faz duvidar
possa ser telegrafia
aquelas respostas que
suas pernas pronunciam
é que a mensagem de quem
lá do outro lado da linha
ela responde tão séria
nos passa despercebida.
Mas depois já não há dúvida:
é mesmo telegrafia:
mesmo que não se perceba
a mensagem recebida,
se vem de um ponto no fundo
do tablado ou de sua vida,
se a linguagem do diálogo
é em código ou ostensiva,
já não cabe duvidar:
deve ser telegrafia:
basta escutar a dicção
tão morse e tão desflorida,
linear, numa só corda,
em ponto e traço, concisa,
a dicção em preto e branco
de sua perna polida.
Então, o que me dizem?

4 comentários:

giovana disse...

Olá , professora. Não tive a sorte de descobrir a paixão de João Cabral pelo flamenco quando ainda era estudantes. O poema é lindo, emociona e inspira! Se toca a todos, imagine a quem faz baile flamenco ...
Vi que vc sugeriu a seus alunos que assistam a video do youtube feito por uma escola brasileira (muito boa) de baile flamenco. Mas eles podem beber de fonte muito mais rica. Há, no próprio youtube, videos de bailaores e bailaoras GENIAIS: Farruco, Manuela Carrasco, Antonio Gades, Cristina Hoyos,Manuela Vargas, Mario Maya e de uma "gração mais nova": Antonio el Pipa, Rafael Campallo, Pastora Galvan, Melisa Calero, Isabel Bayon.
Se não der mais tempo de repassar a sugestão aos alunos , fico torcendo para vc mesma aprecie as indicações. Vale muito a pena!
Um abraço,
Giovana Teles

Luciana disse...

Olá Giovana,
seja bem-vinda ao blog!
Obrigada pelas excelentes indicações! Com certeza vou apreciá-las e dividi-las com meus alunos!
Você, pelo visto, deve ser uma bailadora, não é mesmo?
O tema de Espanha é muito caro à poesia de Cabral: ele ama a dança, as touradas, as bailadoras, o cante, enfim, toda a cultura hispânica.
Se você quiser se aprofundar nesse eixo da obra cabralina, sugiro a leitura de Quaderna, Sevilha Andando e Andando Sevilha, três livros de poesia em que ele mostra todo o seu fascínio pela Espanha.
O poema "Estudos para uma bailadora andaluza" integra o livro Quaderna (1959), que também traz o belíssimo "A palo seco", que começa assim:

"Se diz a palo seco
o cante sem guitarra;
o cante sem; o cante;
o cante sem mais nada;

se diz a palo seco
a esse cante despido:
ao cante que se canta
sob o silêncio a pino.

O cante a palo seco
é o cante mais só:
é cantar num deserto
devassado de sol;

é o mesmo que cantar
num deserto sem sombra
em que a voz só dispõe
do que ela mesma ponha

(...)"

Bom, aguardo mais visitas, mais comentários e mais dicas suas, ok?
A propósito: como você descobriu o blog?
Um abraço,
Luciana

giovana disse...

Olá, Luciana,
Obrigada pelas sugestões de livros.
São lindos todos esses poemas!
Até postei dois no youtube tb. Se quiser vê-los, coloque na busca giovanateles ou joão cabral.
Ah! Soube do blog pesquisando sobre a paixão de joão cabral pelo flamenco.
um abraço,
Giovana

Luciana disse...

Que legal, Giovana!
Mais uma vez, seja bem-vinda ao blog!
Vou olhar os poemas no youtube sim!
Abraços,
Luciana