segunda-feira, 18 de agosto de 2008

O grande circo místico



Feito especialmente para o Ballet Teatro Guaíra de Curitiba (PR) no ano de 1983, "O grande circo místico" teve como inspiração um poema homônimo de Jorge de Lima (lançado no livro "A túnica inconsútil", 1938). Jorge de Lima pertenceu à segunda geração Modernista (vertente católica).

O grande circo místico

O médico de câmara da imperatriz Teresa - Frederico Knieps -
resolveu que seu filho também fosse médico,
mas o rapaz fazendo relações com a equilibrista Agnes,
com ela se casou, fundando a dinastia de circo Knieps
de que tanto se tem ocupado a imprensa.
Charlote, filha de Frederico, se casou com o clown,
de que nasceram Marie e Oto.
E Oto se casou com Lily Braun a grande deslocadora
que tinha no ventre um santo tatuado.
A filha de Lily Braun - a tatuada no ventre
quis entrar para um convento,
mas Oto Frederico Knieps não atendeu,
e Margarete continuou a dinastia do circo
de que tanto se tem ocupado a imprensa.
Então, Margarete tatuou o corpo
sofrendo muito por amor de Deus,
pois gravou em sua pele rósea
a Via-Sacra do Senhor dos Passos.
E nenhum tigre a ofendeu jamais;
e o leão Nero que já havia comido dois ventríloquos,
quando ela entrava nua pela jaula adentro,
chorava como um recém-nascido.
Seu esposo - o trapezista Ludwig - nunca mais a pôde amar,
pois as gravuras sagradas afastavam
a pele dela o desejo dele.
Então, o boxeur Rudolf que era ateu
e era homem fera derrubou Margarete e a violou.
Quando acabou, o ateu se converteu, morreu.
Margarete pariu duas meninas que são o prodígio do Grande Circo Knieps.
Mas o maior milagre são as suas virgindades
em que os banqueiros e os homens de monóculo têm esbarrado;
são as suas levitações que a platéia pensa ser truque;
é a sua pureza em que ninguém acredita;
são as suas mágicas que os simples dizem que há o diabo;
mas as crianças crêem nelas, são seus fiéis, seus amigos, seus devotos.
Marie e Helene se apresentam nuas,
dançam no arame e deslocam de tal forma os membros
que parece que os membros não são delas.
A platéia bisa coxas, bisa seios, bisa sovacos.
Marie e Helene se repartem todas,
se distribuem pelos homens cínicos,
mas ninguém vê as almas que elas conservam puras.
E quando atiram os membros para a visão dos homens,
atiram a alma para a visão de Deus.
Com a verdadeira história do grande circo Knieps
muito pouco se tem ocupado a imprensa.

Voltemos agora ao disco (na época não existia CD, tá?). Com autoria de Edu Lobo e Chico Buarque, “O grande circo místico” é uma das obras mais importantes da Música Popular Brasileira.

Que tal um exercício de interpretação? Dentre tantas músicas fantásticas encontradas nessa obra, selecionei uma que tem um significado muito especial para mim. Não sei se vocês conhecem a “Ciranda da bailarina”, mas espero que gostem!

Assistam ao vídeo http://www.youtube.com/watch?v=xibIET_QMjQ e me digam sobre o que a música fala.

Para facilitar o trabalho coloco a seguir a letra, mas não deixem de escutá-la!

Ciranda da bailarina

Procurando bem todo mundo tem pereba,
Marca de bexiga ou vacina
E tem piriri, tem lombriga, tem ameba
Só a bailarina que não tem
E não tem coceira, verruga, nem frieira
Nem falta de maneira ela não tem
Futucando bem, todo mundo tem piolho
Ou tem cheiro de creolina
Todo mundo tem um irmão meio zarolho,
Só a bailarina que não tem
Nem unha encardida, nem dente com comida
Nem casca de ferida ela não tem
Não livra ninguém,
Todo mundo tem remela quando acorda às seis da matina
Teve escarlatina ou tem febre amarela
Só a bailarina que não tem
Medo de subir, gente
Medo de cair,
gente, medo de vertigem quem não tem?
Confessando bem,
Todo mundo faz pecado,
logo assim que a missa termina
Todo mundo tem um primeiro namorado
Só a bailarina que não tem
Sujo atrás da orelha, bigode de groselha
Calcinha um pouco velha ela não tem
O padre também pode até ficar vermelho
Se o vento levanta a batina
Reparando bem todo mundo tem pentelho
Só a bailarina que não tem
Sala sem mobília, goteira na vasilha
Problema na família, quem não tem?
Procurando bem...
Todo mundo tem...
Procurando bem...

P.S.: Além de a música ser fantástica, vale a pena também conferir Chico Buarque novinho, lindo, ao lado de Edu Lobo (violão). O terceiro parece que é um apresentador italiano chamado Beppe Grillo (o vídeo foi gravado para o seu programa na TV Italiana, na década de 80).

4 comentários:

Luciana disse...

Queridos,
n�o consegui diagramar melhor o post :(
Ent�o, vou fazer um "metapost",rs.
� o seguinte:
Inseri o poema de Jorge de Lima para voc�s conhecerem melhor as diferentes vertentes, isto � os diferentes caminhos percorridos pela Segunda Gera�o Modernista (1930). Al�m do engajamento social (regionalismo), essa gera�o � marcada por tend�ncias intimistas, de sondagem psicol�gica, al�m dos autores cat�licos (caso de J. L.).
Bom, a id�ia do post � mostrar como Edu e Chico dialogaram com esse poema.
Depois, resolvi colocar uma das m�sicas de "O grande circo m�stico" ("Ciranda da bailarina") e pedi uma interpreta�o.
Aguardo a leitura de voc�s!
Bjs

Chali disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Chali disse...

O Chico Buarque não disse mentira quando falou que a "bailarina" não tem pereba(sei por experiência própria...haha)...Cada vez que a "bailarina" sobe no palco, ela viaja, tira os pés do chão no duplo sentido e tudo fica perfeito, no momento da dança só existe aquilo, não existe mais nada, a "bailarina" esquece o problema na família e a marca da vacina. O mundo dela fica perfeito, por isso o autor a transforma num ser especial,diferente, o que ilustrando perfeição. "Como a bailarina não tem medo de vertigem?"- acho que o poema pode nos fazer acreditar que todos podem "ser" como a "bailarina".

Não sei se vc ente deu o qeu eu quis dizer, professora...mas eu tentei..
hheuuh..

Ah! E...ó: Leve o ballet para sua vida!

Bjosss

Luciana disse...

Chali, querida, sua leitura me surpreendeu!
É, com certeza, uma interpretação muito interessante! Parabéns!
Beijos e continue comentando!

P.S.: Para os interesados no post: existem outras possibilidades de leitura... Quem se habilita?