quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Em vez de notícia, novela barata


Em vez de notícia, novela barata
Por Ligia Martins de Almeida em 21/10/2008
Cada vez que a televisão faz uma grande cobertura de tragédia (como a queda do avião da TAM em Congonhas, a morte da menina Isabella e agora o seqüestro de Santo André), a imagem da imprensa fica um pouco mais prejudicada. Confunde-se reality show ou novela barata com cobertura jornalística. E os espectadores, indignados como vários leitores do OI em seus comentários, culpam a imprensa.
Está na hora de jornalistas conscientes – aqueles que aprenderam que uma reportagem tem que ser bem apurada e que é preciso informar, mas respeitando as pessoas – tomarem uma posição contra isso que hoje chamam de "cobertura". Sensacionalismo é uma coisa; jornalismo é outra. E o que algumas emissoras fizeram semana passada foi puro sensacionalismo. A impressão que passou é que as emissoras, sem nada melhor para oferecer aos espectadores, torciam para que o cativeiro da estudante continuasse para sempre. Ganhavam as TVs, sem coisa melhor para oferecer, ganhavam os anunciantes, que tinham seu produto valorizado num programa de grande audiência, e ganhou o rapaz, que virou celebridade de uma hora para outra.
A moça baleada, a amiga que voltou para o cativeiro e as famílias atingidas não pareciam ter a menor importância. Terminado o confronto entre policiais na frente do Palácio do Morumbi, o seqüestro de Santo André era o programa mais barato e fácil de produzir que as emissoras poderiam oferecer ao público.
Soluções dos "especialistas"
É preciso lembrar que existe grande diferença entre notícia e novela de televisão. E o que se viu, na cobertura televisiva do fato, foi um reality show ao vivo, engordando a audiência das emissoras que usavam seu tempo para focalizar a janela do apartamento onde se desenrolava o drama. Pior do que isso era acompanhar a tentativa dos apresentadores de encher o tempo dos programas com comentários pra lá de vazios, sem contar as perguntas a especialistas sobre o que aconteceria com o rapaz ao final do seqüestro.
"De onde estou, o que se vê é uma grande correria", dizia a repórter do SBT A imagem que a emissora transmitia era igual à de todos as outras tardes: carros de polícia parados, policiais reunidos e a janela com a luz acesa.
Mas o pior mesmo talvez seja acompanhar a reação das pessoas. Na sala de um consultório, com a TV ligada, na hora em que os envolvidos no drama saíram do prédio, um casal correu para perto do aparelho e obrigou a filha, de quatro anos, a fazer silêncio. Era como final de novela. Eles não queriam perder nada da cena.
O público acompanhou o seqüestro desde segunda-feira (13/10); cada pessoa criou suas teorias e encontrou suas próprias soluções para a situação: mandar remédio para dormir, cortar a luz, não enviar alimentos. Enfim: das mil soluções sugeridas pelos "especialistas" entrevistados pela TV, cada espectador escolheu a sua. Mas todos concordavam numa coisa: um certo jornalismo que ali se viu praticado não podia ter dado tanto destaque ao rapaz, logo transformado em personagem principal da tragédia.
Apenas tragédias pessoais
Hoje os espectadores não se contentam mais em buscar informações na imprensa: como acompanham as tragédias ao vivo (vide a Guerra do Golfo e o ataque às torres gêmeas de Nova York), acostumaram-se a interpretar os fatos a partir das imagens que a TV fornece e, infelizmente, dos comentários feitos pelos apresentadores. Acostumaram-se ademais aos âncoras que chegam a ficar horas no ar, preenchendo o tempo com entrevistas e comentários nem sempre bem fundamentados. O resultado é que o jornalismo hoje ganhou um novo sentido para o público. O que antes era investigação, interpretação e preocupação em ser fiel à verdade, passou a ser tido como um show.
Nesse jornalismo do espetáculo, de um lado, temos as emissoras, que fazem qualquer coisa para garantir o ibope, e do outro personagens transformadas em celebridades. O rapaz de Santo André, que começou querendo resolver um problema emocional, talvez não contasse com a notoriedade imediata. Ficou famoso, virou centro de atenções e se descontrolou ainda mais. O resultado foi uma vida perdida e outra destruída.
Mas isso não tem a menor importância para as emissoras de TV: os personagens dessa tragédia, como tantos outros, só interessam por alguns dias. Rapidamente a história fica velha, não dá mais tanto ibope, e o que sobra são apenas seres humanos vivendo suas tragédias pessoais. Não servem mais para esquentar a fraca programação diária, sobretudo a diurna, da TV aberta. Notícia de verdade – sobre o estado das pessoas envolvidas com o drama, a forma como Lindemberg Fernandes Alves conseguiu suas armas, os pais dos jovens, a condição de suas famílias, a situação dos moradores da periferia de Santo André – só aparecerá (e também por pouco tempo) na imprensa escrita.
Fonte:
Então, o que me dizem?

8 comentários:

Estela disse...

Professora!
Tive que comentar nesse post, principalmente porque se refere à carreira que eu quero seguir. Mesmo que eu esteja mais tendenciosa a me encaminhar para a assessoria de comunicação, sempre fui apaixonada pela comunicação escrita. Concordo plenamente com esse post. O que muitas vezes falta na televisão é ética e impessoalidade na hora de transmitir uma notícia. As pessoas que ficam restritas a televisão, vêem a informação que lhes é transmitida pro um ponto de vista muitas vezes tendencioso. Não que os meios impressos não sejam tendendiosos, mas a imagem é muito mais facilmente manipulada. Sendo assim, deixo aqui a minha opinião sobre os rumos que a televisão está tomando, não possuindo mais a função de realmente informar, mas de ganhar através dos picos de audiência que devem ser mantidos.

netinho074 disse...

Prefessora e Estela..

Não concordo com a opinião de vocês !

Apenas penso que os meios de comunicação mostram o que o grande público quer ver !

E consequentemente algum tempo depois do drama ocorrido o grande público vai pensar: "- Mais uma notícia sobre esse caso ! Que saco !"

Infelizmente essa é a realidade.. e por isso não boto a culpa nos meios de comunicação !

Estela disse...

Nelson, Nelson...
Você quer fazer Jornalismo esportivo. Isso é entreterimento! Não sabe nada sobre notícia de verdade. Entrevistar jogador é fácil (eles são de "poucas palavras")e falar mal do técnico, também é.hahaha xD Tô brincando!
Agora é sério. Concordo com o que vc disse sobre televisionar aquilo que as pessoas querem ver. A população tem grande parcela de culpa nisso, sim. São vazias e preguiçosas. Muitas vezes preferem ver através dos olhos dos outros, sem procurar digerir aquilo que recebem.
Porém, esse meio de comunicação (a televisão)deveria se manter íntegro. E não é o que estamos vendo. A televisão está cada vez mais corrompida. Corrompida pela competição entre emissoras, pelo dinheiro que "rola" com isso tudo.
É óbvio também que a população enjoa facilmente das "notícias" que são dadas, mas isso ocorre porque todos os dias um batalhão de informações são jogadas em cima de nós e tais informações vêem carregadas de superficialidade, o que proporciona à sociedade informações pouco informativas, entende? Juntando isso com a pouca visão crítica que a maioria da sociedade possui... Vc vê no que dá!
E o principal. Não esqueça que estamos falando também sobre a TV Aberta, a qual tem a maioria de seus telespectadores pessoas sem muita instrução.

netinho074 disse...

Minha querida namorada !

Acho que no país em que vivemos jornalistas esportivos ganham MUITO mais notoriedade do que apresentares de telejornais !

Voltando ao assunto, creio que o problema não está nas informações dadas pelas emissoras e sim na população, e principalmente da população que possui maior instrução. Não creio que um trabalhador que chega em casa tarde da noite após trabalhar 14 horas do seu dia fará alguma questão de ter informações embasadas.

O problemas está na classe que teve oportunidade de ter um ensino decente no Brasil !

Vamos supor que uma nova rede de TV fosse criada e sua programação fosse baseada em simplesmente informar e detalhar o fato e por algum tempo só falar dele (por que aconteceu, as consequências e etc..) Será que a população que possui o conhecimento assistiria esse canal ?!

HUMMM ?!

Luciana disse...

Queridos,
estou de saída para dar aula, mas quanto voltar entrarei no debate! Me aguardem e não apaguem os comentários :)
Beijos

Luciana disse...

Estela,
estou contigo!
Nelson, você esqueceu de dizer que uma parcela dessa população instruída é justamente aquela que produz o circo midiático.
Embora o problema não seja tão simples assim - a culpa é da emissora ou a culpa é da população - precisamos fazer uma reflexão sobre o padrão "big brother" de cobertura desses trágicos acontecimentos.
O que é sofrimento se transforma em passatempo!
E o que está em jogo?
Pessoal, isso significa simplesmente que estamos perdendo cada vez mais a sensibilidade e isso é muito perigoso!!!
A História nos mostra que quando uma sociedade deixa de sentir compaixão pelo sofrimento do próximo, a intolerância para com o outro se torna absoluta (vide os genocídios do século XX).
Extrapolando um pouco: os nazistas foram os primeiros a descobrirem o poder e a eficiência da comunicação de massa (rádio e cinema).
Como dizia Riobaldo, em Grande Sertão: Veredas, "Viver é muito perigoso..."
Beijos procês!

netinho074 disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
netinho074 disse...

Professora não acho que perdemos o "felling" de sentir que o sofrimento alheio é apenas um passatempo..

E lembrando que a GIGANTESCA maioria da população brasileira é sofrida.. trabalha 12 horas por dia.. e não tem por interesse que a programação que assiste seja manipulada ou não !

O que acontece é sim uma acomodação por parte da parcela que possui o conhecimento.. sentir pena nós sentimos.. e fazemos comentários do tipo "- Em um país desenvolvido esse muleq seria condenado a morte!" mas lutar para que atrocidades como estas não aconteçam mais não existem..

Movimentos organizados contra violência só acontecem quando alguem IMPORTANTE é prejudicado !

INFELIZMENTE !(Mudei o foco rapidinho, ahshashahsa)

Finalizando.. nesse início de século XXI é absolutamente improvável que a atuação da mídia como influência possa criar uma única ideologia seja em uma cidade, ou estado, ou país.. Atualmente é impossivel o controle total dos meios de comunicação em massa !