terça-feira, 7 de outubro de 2008

A guerra das palavras

A guerra das palavras
Pais pressionaram direção de colégio a demitir professor -"disseram-me que havia um parecer de psicólogos e juristas condenando a combinação de professor e escritor", afirma; instituição não se manifesta
Poeta e professor de literatura, Oswaldo Martins Teixeira, 47, foi demitido no dia 11 de setembro da Escola Parque do Rio de Janeiro, onde lecionava para turmas de 7º e 8º anos do ensino fundamental. Pais de alunos descobriram que Teixeira escreve poemas eróticos; ele os publicou em livros e em um blog. Pediram a cabeça do professor.
A escola moderna, construtivista, mensalidade de R$ 1.161, unidades na Barra da Tijuca e no aristocrático bairro da Gávea, que funciona sob o lema "Uma escola que estimula a expansão cultural", demitiu.
Formado em letras pela Pontifícia Universidade Católica, o professor Teixeira obteve o título de mestre na Universidade Estadual do Rio de Janeiro, com a dissertação "Erotismo e Gramática, Índices da Defloração - Uma Leitura de Manoel de Barros", de 1992.
Há quatro anos, prepara seu doutorado na Universidade Federal Fluminense sobre o poeta, escritor e dramaturgo italiano Pietro Aretino (1492-1556)."Diverti-me escrevendo os sonetos que podeis ver. A indecente memória deles, eu a dedico a todos os hipócritas, pois não tenho mais paciência para as suas mesquinhas censuras, para o seu sujo costume de dizer aos olhos que não podem ver o que mais os deleita."
O texto é de Aretino. Refere-se aos "Sonetos Luxuriosos", escritos em linguagem explícita a partir de 16 gravuras eróticas de Giulio Romano, discípulo de Rafael Sanzio, um dos maiores mestres em pintura e arquitetura, contemporâneo de Michelangelo e Da Vinci.
Aretino e Giulio Romano nasceram no ano da descoberta da América, durante o Renascimento das carnes e dos sentidos. Juntos, elaboraram uma obra-prima do despudor.
"Ousei criar poemas à moda de Aretino", justifica o professor em tempos politicamente corretos. Autor de quatro livros publicados pela 7 Letras -"Desestudos" (2000), "Minimalhas do Alheio" (2002), "Lucidez do Oco" (2004) e "Cosmologia do Impreciso" (2008)-, Teixeira mantém um blog (http://osmarti.blogspot.com/). "a alice no país das baboseiras/ é uma garota esperta// prefere foder com a coleguinha/ usar celular/ batom// cortar as cabeças/ dos mendigos." O poema figura na "Cosmologia do Impreciso".
Fogueira ardendo
Foi na preparação da Semana Literária da Escola Parque (realizada em maio) que a fogueira do professor começou a arder. "A coordenação me pediu que fosse às salas de aula do 7º e do 8º anos para divulgar o meu processo de escrita e o blog. Contei como eu criava, falei de minha paixão pela literatura, tentei mostrar que inclui saber ler as estrelas no céu, os passos até a banca de jornal."
Na mesma semana, os garotos deram um "google" e descobriram o blog do professor na internet. Escândalo.
Pais foram até a coordenação pedagógica reclamar do que consideravam ser um conteúdo inadequado, pornográfico, obsceno. O professor foi chamado a se explicar: "Eu disse que não via problema nenhum, que a literatura erótica é tão antiga quanto a própria literatura."
A lista de livros sugeridos neste ano para os alunos do primeiro ano do ensino fundamental da Escola Parque inclui "Poemas para Brincar" e "Olha o Bicho", de José Paulo Paes (1926-98). Um "google" no nome do poeta e vem "Fodamos, meu amor, fodamos presto. Pois foi para foder que se nasceu...". É a tradução dos "Sonetos Luxuriosos" de Aretino, que Paes providenciou -a primeira feita para o português.Na biblioteca da Escola Parque, pode-se ler o livro "Belo Belo e Outros Poemas" de Manuel Bandeira (1886-1968), o mesmo autor de "A Cópula" – só vendo.
A luta da poesia
Na Feira do Livro, edição de 2002 da Escola Parque, os alunos prestaram homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade, cujo centenário era comemorado naquele ano.
"A língua lambe as pétalas vermelhas da rosa pluriaberta; a língua lavra certo oculto botão, e vai tecendo lépidas variações de leves ritmos. E lambe, lambilonga, lambilenta, a licorina gruta cabeluda, e, quanto mais lambente, mais ativa, atinge o céu do céu, entre gemidos, entre gritos, balidos e rugidos de leões na floresta, enfurecidos."
No início de setembro, o professor Teixeira foi chamado para uma reunião no Instituto Moreira Salles, que fica na mesma rua da Escola Parque.
Foi no local construído nos anos 1950, um monumento ao modernismo carioca, que se comunicou a demissão.
"Disseram-me que havia um parecer de psicólogos e juristas condenando a combinação do professor com o escritor em uma só pessoa", lembra Teixeira. "Não pude discutir com nenhum pai, não houve debate nenhum", diz. "Impôs-se a sombra da censura e do controle porque a escola simplesmente decidiu ceder a um grupo de pais dos quais nem sequer sei os nomes."
Casado há 24 anos, pai de três filhos, o professor mora no bairro de Laranjeiras. "Meu problema não é a empregabilidade. Estou muito mais preocupado com o obscurantismo, com a certeza dos censores. A poesia luta contra isso. E foi muito trabalho até me transformar em um poeta. Não posso abrir mão disso", diz.
Fonte: Folha de São Paulo, Caderno Mais!, 5/10/2008.
Sobre esse lamentável episódio, coloco um trecho do brilhante artigo “Arbítrio dos outros” do professor Luiz Costa Lima, publicado na mesma edição do caderno Mais! do jornal Folha de São Paulo:
“Um professor de português que tem a má sorte de ser também um poeta e ensina(va) em um colégio secundário particular da zona sul, por ter publicado, no seu blog, um conjunto de poemas eróticos, é sumária e discretamente demitido.
A medida foi tomada pela instituição ante a reclamação de pais de alunos, que acharam que escrever poemas eróticos não é tarefa para um professor de seus filhos. Não chamo nem sequer a atenção para o fato de que tal colégio foi fundado com uma plataforma liberal, que, ao ir crescendo, etc. etc.
Pergunto-me, sim: que defesa tem um poeta que, para sobreviver, precisa dar aulas de português, caso sinta a necessidade de escrever poemas eróticos? Não adianta atentar para a cegueira desses pais ou para a covardia hipócrita de tal direção. A questão concreta é como pode alguém, no caso o poeta-professor, defender-se ante uma decisão arbitrária que interfere em sua sobrevivência material?
Não acentuo nem sequer a discrepância entre os princípios de uma sociedade que se diz liberal, recém-saída de uma ditadura, e uma medida assim absurda. Acentuo, sim, que o marginal ao noticiário midiático revela o aspecto autoritário que, como sombra perversa, permanece entranhado na sociedade brasileira.”
Então, o que me dizem?

3 comentários:

Chali disse...

Quanta hipocrisia hein?!
Se foi realmente isso que aconteceu...bem ridícula a atitude da escola.

Chali disse...

Dá até pra acreditar que alunos de 7º e 8º não são cheios de funks nos seus ipods. Ou os pais são mto, mto,mto inocentes ou então são um pouco hipócritas!

Bjos

Luciana disse...

Chali, concordo que se trata de muita hipocrisia! Sobre esse assunto saiu no caderno Mais! de hoje (12/10) um comentário bastante pertinente do crítico Jorge Coli:
"Oswaldo Martins, especialista em literatura erótica, é também poeta. Um ou outro de seus poemas, em livros e no blog http://osmarti.blogspot.com, contém palavras mais fortes. Alguns elaboram desejos físicos de maneira delicada e sem evidência imediata. O blog é inteligente, carregado de amor pela literatura; os poemas são bons. Essas qualidades bastaram para que a Escola Parque [no Rio], em que Oswaldo Martins lecionava português, o demitisse, como contou, no domingo passado, o Mais!. A miopia moralista da escola, dos pais, de "psicólogos e juristas" evocados no texto, miopia que desencadeou o caso, assusta pelo "obscurantismo e a certeza dos censores", na expressão do próprio professor despedido. Censura e obscurantismo, no caso, não são singulares e episódicos. Eles se inserem na mentalidade de nossos tempos regressivos, marcados por puritanismos, por fundamentalismos religiosos, pelo maniqueísmo das convicções, pelo gosto doentio em patrulhar, controlar, vigiar e punir. É bem difícil lutar contra tudo isso porque essas manifestações se fazem com parcimônia, gota a gota, disfarçadas, em nome de álibis austeros. Aqui, trata-se de proteger as crianças, que, como todos sabem, são anjinhos imateriais, feitos de etérea e cândida substância, não de carne e osso. Mas quem os protegerá, e a nós todos, do mal que existe na cabeça desses educadores, desses pais, desses psicólogos e juristas, que nunca disseram um palavrão, que estão incólumes de pulsões pecaminosas, e que, senhores da moral, transformaram-se em juízes? Quem nos protegerá dos puros?"

Beijos